Desapropriações Encarnadas de Ancestrais Indígenas da América do Norte na Coleção Craniana Samuel G. Morton no Museu da Universidade da Pensilvânia
– Paul Wolff Mitchell, 20 de fevereiro de 2022

Assim como muitos museus de antropologia, o Museu da Universidade da Pensilvânia abriga os restos mortais de ancestrais indígenas. A coleção de antropologia física do Museu da Universidade da Pensilvânia representa um importante estudo de caso, visto que suas coleções são extensas (abrangendo cerca de 10 mil indivíduos no total), historicamente significativas e razoavelmente bem documentadas. Essas coleções também demonstram muitas das complexidades dos processos de “objetificação” e “museificação” que há muito desapropriam os povos indígenas de seus ancestrais.
A Coleção Craniana Samuel Morton, de aproximadamente 1.600 crânios humanos, reunida em meados do século XIX, é talvez a mais conhecida das coleções de restos humanos do Museu da Universidade da Pensilvânia. No entanto, existem outras, incluindo centenas de crânios e outros restos mortais provenientes das muitas expedições arqueológicas patrocinadas pelo Museu da Universidade da Pensilvânia, desde o final do século XIX até meados do século XX. Essas coleções incluem restos mortais de todo o mundo, com uma grande porcentagem proveniente de povos indígenas das Américas. [LEIA MAIS]
Samuel George Morton começou a colecionar crânios em 1830, aproveitando-se de sua posição como membro de alto escalão da Academia de Ciências Naturais da Filadélfia, a primeira grande sociedade científica institucionalizada da América dedicada à história natural. Ele contava com uma rede global de naturalistas, médicos, funcionários coloniais, missionários, oficiais militares e outros para lhe enviarem crânios. Acreditando que o tamanho do crânio era indicativo de inteligência, ele coletou crânios para categorizar, medir e classificar raças humanas, em um dos primeiros exemplos de “racismo científico” sistemático nos Estados Unidos. A obra de Morton foi usada para justificar e explicar a supremacia branca, a escravização de pessoas negras e o “destino manifesto” colonial dos europeus nas Américas.
Morton publicou “catálogos” de sua coleção à medida que ela crescia, em 1840, 1843 e 1849. A cada crânio era atribuído um número, e Morton geralmente registrava detalhes básicos sobre a proveniência de cada um, juntamente com o nome do fornecedor — frequentemente um ladrão de túmulos, um saqueador de campos de batalha, um furtador de salas de dissecação ou um intermediário — que o enviara. Morton também atribuiu raça, sexo e idade da morte aos indivíduos cujos restos mortais catalogou — às vezes confiando em detalhes fornecidos por seus fornecedores, mas frequentemente baseando-se inteiramente em suas próprias conjecturas. Ocasionalmente, detalhes da história de vida de um indivíduo eram incluídos ou documentados em cartas que acompanhavam alguns dos crânios. Morton faleceu em 1851, mas seu sucessor, James Aitken Meigs, continuou a expandir a coleção, publicando outro “catálogo” em 1857. A Academia de Ciências Naturais continuou a ampliar a coleção ao longo da década de 1920, quando o último crânio foi registrado em um livro de aquisições não publicado.

O mapeamento atual da coleção Morton reflete apenas os restos mortais de ancestrais indígenas da América do Norte que constam em registros de catálogo publicados. O mapeamento indica a proveniência aproximada — ou locais de coleta — desses ancestrais. Entre os 1.035 crânios registrados na “Coleção Morton” em 1857, 263 pertencem a ancestrais indígenas da América do Norte.
Os crânios de americanos brancos e negros, bem como os de pessoas escravizadas que morreram no Caribe, também estão entre os restos mortais que Morton reuniu e documentou nesses catálogos, mas não estão incluídos no mapa aqui apresentado. Há também pelo menos sete ancestrais do Havaí que faziam parte da coleção Morton por volta de 1857 e que foram igualmente excluídos deste mapeamento.
A maioria dos ancestrais indígenas da América do Norte provém do que hoje são os Estados Unidos, mas os colecionadores também recolheram restos mortais tão ao norte quanto a Baía de Baffin e a Groenlândia, e tão ao sul quanto a Península de Yucatán. Cerca de 80% dos ancestrais da América do Norte são originários dos atuais Estados Unidos, sendo a maioria proveniente à leste do rio Mississippi à oeste das Montanhas Rochosas.
A desapropriação de terras e corpos após a “Lei de Remoção Indígena” de Andrew Jackson, em 1830, e a exploração e colonização do Território do Oregon — anexado aos Estados Unidos em 1846 — estavam entre os principais, mas de forma alguma os únicos, contextos para esses roubos de corpos indígenas. A Guerra Mexicano-Americana de 1846-48 foi outro episódio histórico significativo que rendeu dezenas de crânios para Morton.
Embora esses mapas forneçam uma visão geral dos locais onde esses restos mortais foram coletados, eles não pretendem representar as verdadeiras “origens” dos ancestrais na coleção de Morton. Isso se deve em parte ao fato de que os colecionadores de crânios frequentemente saqueavam os túmulos de ancestrais enterrados longe de suas terras natais, como resultado dos deslocamentos sucessivos sofridos pelos povos indígenas das Américas ao longo do século XIX. Consequentemente, muitos ancestrais da coleção podem ter vivido e morrido longe das terras ancestrais e espirituais que suas comunidades habitavam antes da intrusão colonial. Contudo, a imprecisão das coordenadas de GPS aqui fornecidas não só reflete a imprecisão inerente aos registros históricos, como também obscurece e protege intencionalmente a localização exata dos cemitérios indígenas. O software de mapeamento utilizado aqui agrupa os locais de acordo com sua densidade e a escala do mapa. Para mostrar todos os locais entre o sul do México e a Groenlândia, fornecemos duas imagens separadas desses mapas.
Utilizamos marcadores gerais dentro de regiões ou territórios definidos no mapa para representar, de forma ampla, as origens geográficas dos restos mortais indígenas da coleção Morton e fornecer informações históricas sobre o processo de sua coleta. No entanto, cerca de 10% dos vestígios catalogados antes de 1857 carecem de documentação suficiente até mesmo para lhes atribuir marcadores de localização gerais, sendo, portanto, omitidos do mapa por completo. Esses “desconhecidos” — que representam 36 dos 263 ancestrais indígenas da América do Norte incluídos na coleção Morton — incluem restos mortais catalogados sob rótulos amplos e vagos como “Índio” ou “Aborígene Americano”, sem quaisquer outras informações ou registros associados a eles. Embora suas origens específicas não sejam claras, pesquisas futuras poderão eventualmente esclarecer suas histórias.
Dado que os conjuntos de dados utilizados para construir este mapeamento se baseiam nos registros de Morton, devemos ter cautela com a linguagem utilizada no desenvolvimento futuro deste projeto por dois motivos principais. Em primeiro lugar, as classificações tribais, raciais ou étnicas de Morton eram, na melhor das hipóteses, informações de segunda mão, e pesquisas adicionais podem ser necessárias para verificar algumas dessas categorias. Isso é especialmente importante nos casos em que os ancestrais foram exumados muitos anos após o sepultamento, ou quando vários intermediários estiveram envolvidos antes que os restos mortais fossem adicionados à coleção de Morton. Em segundo lugar, Morton frequentemente empregava termos colonizadores que podem não refletir os nomes e entendimentos indígenas. Muitos desses termos e categorias representam uma distorção da história e da vida social indígena por meio da imposição de taxonomias rígidas e imprecisas da “ciência” dos colonizadores. Ao discutir essas histórias e legados de desapropriação, a questão de como apresentar essas informações da maneira mais ética possível permanece, em grande parte, uma questão em aberto.
Citation
Wolff Mitchell, Paul. 2022. 'Desapropriações Encarnadas de Ancestrais Indígenas da América do Norte na Coleção Craniana Samuel G. Morton no Museu da Universidade da Pensilvânia'. Desapropriações nas Américas. https://staging.dia.upenn.edu/pt/content/WolffP001/









