Onde posso aprender zapoteco?
Rayo Cruz

Resumo:
Você já se perguntou alguma vez como ou onde posso aprender zapoteco? Esta é uma das maiores línguas originárias do México quanto ao número de falantes e uma das mais utilizadas em todo o continente. É falada em quatro regiões do estado de Oaxaca, mas nas últimas décadas o número de falantes nativos de zapoteco tem diminuido.
Hoje, muitas pessoas querem aprender zapoteco como segunda língua. Mas por ser uma língua minorizada e oprimida, não existem espaços onde aprendê-lo de forma metódica e sistemática. Recentemente, algumas pessoas e organizações começaram a oferecer cursos para aprender zapoteco, mas estão enfrentando muitas dificuldades. Por um lado, não existem materiais para ensinar zapoteco como segunda língua e não há instituições onde formar-se como instrutor ou docente de zapoteco.
Os estudantes de zapoteco enfrentam o mesmo problema: não há livros para estudar nem recursos para praticar o idioma. Por tudo isso, aprender a falar zapoteco como segunda língua é uma verdadeira façanha. A situação é bastante similar para todas as línguas indígenas do México e da América Latina. Neste trabalho, vou compartilhar a minha experiência ensinando zapoteco como segunda língua, um projeto que iniciei em 2020 e que continua até hoje.
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Em 2020, no Colectivo Bëni Xidza, começamos a ensinar zapoteco como segunda língua. Fizemos um curso piloto de 10 sessões entre outubro e dezembro. No ano seguinte, lançamos o curso básico de zapoteco, e a partir desse momento o curso foi repetido a cada semestre. Consta de 20 aulas, duas vezes por semana, durante 10 semanas, com um total de 40 horas de formação. É um curso on line, via Zoom e Google Classroom. As sessões são gravadas e o vídeo é compartilhado com os estudantes. É um curso aberto ao público, ou seja, podem participar todas as pessoas que o desejarem. Neste curso, os estudantes aprendem as expressões mais básicas do zapoteco: como cumprimentar e apresentar-se, as cores e os números, também adquirem conhecimentos gramaticais sobre os pronomes, os possessivos e a conjugação dos verbos, etc. Além disso, a formação tem um componente teórico muito importante: história da língua e da cultura zapoteca, a escrita zapoteca e aspectos sociolinguísticos. O curso tem um custo simbólico e é a única forma de financiar nosso trabalho. Este curso existe graças a que os estudantes pagam por participar e o dinheiro arrecadado é utilizado para dar sustentabilidade à nossa escola de zapoteco. Não recebemos dinheiro do governo e não temos apoio de ONGs ou de entidades públicas ou privadas. Para quem quer continuar sua formação, temos mais níveis, mas são exclusivos para as pessoas que fizeram o curso de primeiro nível. No segundo semestre de 2023, abrimos pela primeira vez o curso de zapoteco 2, que é a continuação do curso básico.
Por que ensinar zapoteco como segunda língua? A motivação para ensinar zapoteco provém das circunstâncias que enfrenta a nossa língua zapoteca e as línguas indígenas em geral. Até este momento, a aprendizagem de zapoteco é exclusivamente como língua materna. 99% dos falantes de uma língua originária a aprenderam como língua materna, com os pais ou avós e na comunidade de origem. Há pessoas que aprenderam a falar línguas indígenas como segundo ou terceiro idioma (na maioria, estrangeiros), mas essas pessoas aprenderam a língua porque foram morar numa comunidade que fala essa língua. Experimentaram uma aprendizagem em contexto de imersão que, até agora tem sido a única forma de aprender zapoteco como segunda ou terceira língua. Nós, entretanto, pensamos que é possível aprender a falar zapoteco a partir do ensino formal, isto é, participando em cursos e tomando aulas de zapoteco como segunda língua. O problema reside em que o ensino de línguas originárias como segundo idioma ou como língua estrangeira não está muito desenvolvido. Embora nas línguas mais estendidas, como o quíchua, o náhuatl, o maya ou o aimará haja mais experiência, em termos gerais, o ensino de línguas indígenas é recente. Esta é a nossa aposta: acreditamos que é possível criar escolas de zapoteco como segunda língua e temos a esperança de que vamos ter novos falantes, independentemente dos contextos de imersão e dos territórios onde historicamente tem se falado a língua.
Isso nos conduz a outra pergunta: é fácil ou difícil aprender ou ensinar zapoteco? A resposta curta é sim e não. De certa forma, todas as línguas do mundo são difíceis de aprender, mas também depende da habilidade do estudante para aprender idiomas. Mas, independentemente da complexidade fonológica, morfológica, sintática, semântica, pragmática, gramatical e léxica do zapoteco, há muitos desafios para ensiná-lo e aprendê-lo. As principais dificuldades se relacionam com a falta de recursos didáticos, físicos e digitais. Por sua condição de língua oprimida, minorizada e empobrecida, a língua zapoteca não teve a possibilidade de estar integrada ao ensino escolar. Por isso mesmo, é muito difícil lê-la e escrevê-la, porque os zapotecas não fomos treinados para isso, tampouco praticamos a leitura e a escrita do zapoteco cotidianamente. Escrevemos em situações específicas, mas não sistematicamente nem institucionalmente. Outro problema que enfrentamos é que não há formação específica para professores de zapoteco. Há alguns cursos para o ensino de línguas indígenas, mas a maioria dos professores que ensinam uma língua originária foram formados como professores de línguas estrangeiras, ou como linguistas.
As línguas dominantes, entretanto, dispõem de uma ampla trajetória de ensino para falantes não nativos. Há milhares de recursos para aprender e ensinar na Internet. Se alguém quer dar aulas de inglês ou de espanhol como língua estrangeira, basta ir para uma livraria e comprar um livro didático para o ensino dessa língua. Todas as universidades do mundo oferecem ampla formação para ser instrutor dessas línguas. Os estudantes de alemão, japonês, chinês e francês dispõem de uma ampla variedade de livros no mercado. Mas no caso das línguas originárias, estas opções não existem. Como praticar zapoteco? Com quem falar? Quando aprendemos inglês, podemos ver vídeos, escutar gravações de som e acessar grande variedade de recursos interativos físicos e digitais. Mas não é possível fazê-lo no caso das línguas oprimidas. Como fazer para ter exposição ao idioma? Até agora, a única imersão possível é morar em uma comunidade que se comunica em zapoteco, para praticar ali o que foi aprendido nas aulas. Então, é extremamente difícil aprender e ensinar zapoteco devido às condições em que a língua sobrevive.
É nesse contexto que nos dedicamos ao ensino do zapoteco como segunda língua. Temos muitos desafios pela frente. Devemos criar recursos didáticos, materiais interativos, conteúdo multimídia, materiais físicos e digitais aos quais tenham acesso as pessoas que queiram aprender a língua. Precisamos desenvolver metodologias para o ensino-aprendizagem do zapoteco. Para o futuro, queremos abrir mais níveis até chegar a termos estudantes muito avançados. Também queremos criar um curso completamente virtual, para que as pessoas possam estudar de forma autônoma. Outro dos nossos projetos para o longo prazo é formar professores para o ensino do zapoteco como segunda língua e escrever livros (guias) que possam usar tanto os professores quanto os estudantes. Nossa escola de zapoteco está apenas iniciando mas nos encontramos no bom caminho. Esperamos chegar longe e alcançar o nosso sonho de revitalizar e fortalecer a língua zapoteca, a partir do ensino sistemático e institucional.
Citation
Cruz, Rayo. 2024. 'Onde posso aprender zapoteco?'. Desapropriações nas Américas. https://staging.dia.upenn.edu/pt/content/CruzR001/

