Dispossesions in the Americas

Dispossesions in the Americas

  • Lar
  • Explorar
  • Autores
  • Sobre
  • Arte
  • Corpos
  • Currículos
  • Patrimônio Cultural
  • Mapas
  • Territórios
Voltar à seção Explorar

Lendo em Inglês

Narrativa 1850 - 2024

The Carriqueo Lof and its Struggle for Land and Water

  • Carriqueo, Susana

  • Bleger, Mariel

  • Yanello, Florencia

  • Cardin, Lorena

  • Tomas, Marcela

  • Ramos, Ana

  • Stella, Valentina

Publicado: 2024

Susana Carriqueo in the Gutiérrez creek dam

Susana Carriqueo in the Gutiérrez creek dam

Lendo em Espanhola

Narrativa 1850 - 2024

La Lof Carriqueo y su lucha en torno al territorio y al agua

  • Carriqueo, Susana

  • Bleger, Mariel

  • Yanello, Florencia

  • Cardin, Lorena

  • Tomas, Marcela

  • Ramos, Ana

  • Stella, Valentina

Publicado: 2024

Susana Carriqueo en el dique del arroyo Gutiérrez

Susana Carriqueo en el dique del arroyo Gutiérrez

Narrativa 1850 - 2024

A Lof Carriqueo e sua luta na defesa do território e da água

  • Carriqueo, Susana

  • Bleger, Mariel

  • Yanello, Florencia

  • Cardin, Lorena

  • Tomas, Marcela

  • Ramos, Ana

  • Stella, Valentina

Publicado: 2024

A Lof Carriqueo e sua luta na defesa do território e da água

Mariel Bleger, Lorena Cardin, Susana Carriqueo, Ana Ramos, Valentina Stella, Marcela Tomas, Florencia Yanello (Grupo de Estudios sobre Memorias Alterizadas y Subordinadas, GEMAS)

Susana Carriqueo no dique do arroio Gutiérrez

A história da Lof Carriqueo

A comunidade mapuche Carriqueo está localizada a onze quilômetros da turística cidade de San Carlos de Bariloche, na Patagônia argentina. Rudecindo Rozas e Adelaida Vázquez, avós paternos de Susana Carriqueo, quem mora com sua família no território, chegaram do Chile aproximadamente no ano 1900. As histórias da família começaram nessa época e se estendem até a atualidade, e são o testemunho da vida ligada permanentemente aos cursos de água que rodeiam o território e que determinaram as tradições e os aprendizados durante a infância. Mas também apontam para as mudanças que a vida cotidiana foi experimentando a partir dos empreendimentos turísticos, da contaminação do rio e da urbanização crescente não planejada.

[LEIA MAIS]

2 – Imagem de satélite. Zona da Lof Carriqueo

3 Vídeo. À beira do arroio Gutiérrez

A cidade de San Carlos de Bariloche é um dos pontos nevrálgicos do país em relação ao turismo. É conhecida internacionalmente por ter o maior centro de esqui da América Latina e pela beleza natural do lugar. Nos últimos trinta anos têm aumentado em igual medida o desenvolvimento turístico e o número de pessoas que decidiram morar nessa cidade patagônica. Isso gerou mudanças na infraestrutura e altos níveis de poluição e dano à flora, fauna e ao meio ambiente do lugar. Além disso, as históricas tensões entre grupos privados, o Exército argentino e as comunidades indígenas têm adquirido maior relevância nos últimos anos, deixando em situação de vulnerabilidade e exposição as reclamações das famílias - como a família Carriqueo - que há mais de três gerações mora em territórios que o Estado argentino ainda não reconheceu que lhes pertencem. O território da Lof, que abrange dois hectares e meio, não possui, até este momento, nenhum reconhecimento oficial, embora a comunidade tenha solicitado, formalmente, que se realizasse o levantamento territorial no âmbito da lei nacional n.° 26.160. A necessidade de que essa lei seja implementada tem origem na pressão que há anos vêm padecendo por diversos atores que ocuparam parte de seu território e que utilizam tal superfície como lixão. O território que é conhecido atualmente como Patagônia foi cenário de um genocídio efetuado pelos estados-nação argentino e chileno, quando estavam constituindo-se como tais. Nas últimas décadas do século XIX, o Exército argentino perseguiu, assassinou, sequestrou, encerrou e torturou milhares de indígenas que habitavam livremente nos seus territórios. As famílias e comunidades do povo mapuche que sobreviveram foram retirados de seus lugares de origem, foram conduzidas a campos de concentração ou deportadas como mão de obra barata para diversas cidades. Este processo ocorreu nos dois lados da Cordilheira dos Andes. Nas memórias destas famílias, a decisão de deslocar-se de seus lugares de origem para outros (como no caso dos membros da comunidade Carriqueo) responde a modos de supervivência e estratégias coletivas posteriores ao genocídio. Ao longo dos anos, outra das ferramentas de supervivência foi silenciar e esquecer seus costumes ou práticas ancestrais ou linguísticas. Mesmo assim, muitos dos conhecimentos foram sendo transmitidos de uma geração para a outra.

Em 1938 Rudecindo foi contratado por Vialidad Nacional para a construção de represas e diques desde Puerto Moreno Sur até Virgen de las Nieves. Essas construções ainda estão em uso e organizam o curso de água nessa parte da cidade.

4 Vídeo. Legenda: Lembranças do cuidado do dique

O casal teve filhos e filhas que, com o tempo, foram instalando-se nas vizinhanças. No lugar permaneceu seu filho José Alberto, que casou com a Ángela Carriqueo, que vinha escapando de uma fazenda na zona de Pichi Leufu, local de origem de sua família. O nome da comunidade Carriqueo é o sobrenome desta mulher que, com dedicação, cuidou e respeitou o território, segundo seus filhos e filhas. Nos relatos herdados, a família Carriqueo conta frequentemente como era a vida nas proximidades dos arroios, e descreve com muita dor os momentos em que a vida cotidiana começou a mudar como consequência da contaminação das águas e da urbanização desmedida que teve lugar nos arredores. Atualmente, a terceira, quarta e quinta gerações da família habitam no território. No contexto de urbanização crescente, os habitantes mantêm uma vida parcialmente rural.

Lembranças de uma paisagem única

5 - Foto. Susana Carriqueo à beira do canal Gutiérrez

O território da comunidade se encontra rodeado por dois cursos de água: o arroio Gutiérrez e um canal homônimo formado por um desvio do arroio.

6 – Imagem de satélite. Uma comunidade entre as águas

Ao entrar na Lof, tem-se a sensação de estar na presença de uma área protegida, que contrasta com os avanços da urbanização dos arredores. Os álamos plantados pela avó Adelaida continuam crescendo no litoral do rio e as grandes extensões de pasto permanecem intatas. Ao percorrer o lugar, os integrantes da comunidade rememoram os usos e formas que a paisagem tinha no local onde eles moram hoje. Contam que os animais ficavam à beira dos arroios. Encontravam-se sempre lontras (espécie de mamífero carnívoro da família Mustelidae que habita ambientes aquáticos no Chile e na Argentina) e de nútrias endêmicas da Patagônia que estão em perigo de extinção. Segundo lembram os integrantes da comunidade, o vime que se encontrava nas proximidades do arroio era utilizado para realizar objetos de cestaria e com os juncos faziam-se cortinas. Era habitual tomar prolongados banhos na água. As cores das folhas das sorveiras (ou serbal de los cazadores, uma árvore do gênero da família das rosáceas) cresciam no litoral do arroio e constituíam um cenário outonal de grande beleza, tanto que pintores da dimensão de José Evaristo Repossini solicitaram licença para retratar essa paisagem.

7 – Imagem. “Outono”, Evaristo Repossini, óleo, 1959. Fonte: galeriapremier.com.ar.

8 – Foto. A Lof no outono

“As boas palavras” herdadas

De geração em geração, as pessoas da comunidade mapuche foram transmitindo conselhos, normativas e protocolos acerca de como resguardar as vidas diversas que estão presentes nos seus territórios; mas, em particular, transmitiram “boas palavras” sobre a importância de honrar, cada dia, o vínculo de reciprocidade e afeto que sempre existiu entre todos os seres que convivem no mesmo espaço. Os/as antepassados/as deixaram na comunidade Carriqueo um tesouro: essas boas palavras. E por isso hoje assume esse compromisso construindo suas normas e regras de cuidado da natureza e obrigando-se a cumpri-las. Por exemplo, para a família Carriqueo é muito importante manter o arroio limpo. Para consegui-lo, as fraldas das crianças nunca deviam ser lavadas na água, Limpavam-se os peixes longe do arroio e existiam certas regras para tomar banho. Todos se lembram como a Ángela Carriqueo cuidava da água e do território, e como ensinou os filhos e filhas a fazê-lo, através de histórias, comportamentos e conselhos. “A água era impecável” conta a Susana.

9 - Vídeo. A saudade de Susana Carriqueo da antiga pureza das águas do canal

Os conselhos e o conhecimento sobre o rio

Na memória dos integrantes da comunidade, as histórias e anedotas ligadas à pesca aparecem com diferentes ênfases. Por exemplo, aquelas em que o José Alberto se organizava para ir pescar com os filhos e as filhas levando uma espécie de arpões e cestas que ele mesmo elaborava.

10 - Vídeo. Atividades de subsistência e trabalho

Pescavam trutas grandes que usavam para o consumo familiar, mas com frequência, para vendê-las aos vizinhos e aos hotéis das proximidades. Era tão abundante a pesca que completavam grandes barris de 200 litros de pescado. Contam também que, quando eram crianças, acordavam às quatro da manhã para ir ao rio, com lanternas ou tochas até a beira do arroio, para pescar antes de ir à escola.

11 - Vídeo. As marcas da pesca familiar

Naquela época, as pessoas que moravam por perto lhes pediam licença para chegar até a beira do rio e desfrutar de um dia de pesca. Às vezes, os visitantes lhes davam como presente o que tivessem pescado. A família Carriqueo chegou a criar uma lagoa a partir do canal para semear alevinos (peixes na fase de transição da larva para o juvenil).

A vida no território

Possuíam, pelo menos, três hortas no território, todas elas alimentadas por um sistema de rega construído pelo pai da Susana, partindo do arroio e chegando até as plantações. Os legumes eram consumidos pela família, mas também eram vendidos aos vizinhos ou nas feiras. As mulheres da comunidade contam que, quando eram crianças, tinham que ir do arroio até a horta com baldes cheios de água para que os legumes não murchassem. Elas se lembram também que carregavam a lenha desde um extremo do território, lançavam os toros águas acima para recebê-los depois no local de armazenagem, utilizando ganchos para retirá-los da água. Ao percorrer o território ainda é possível encontrar marcas das atividades realizadas por três gerações de habitantes: a base construída para lavar roupa à beira do arroio, os espaços no litoral onde pescavam, as curvas do curso de água onde tomavam banho, a tomada de água para a rega das hortas.

A contaminação e a alteração da vida cotidiana

12 - Vídeo. A contaminação do arroio Gutiérrez

Há uns trinta anos, a comunidade começou a registrar problemas de saúde nas crianças e nos adultos da vizinhança. Os bebês tinham problemas na pele, gastrenterite e diarreia. A Susana lembra que uma vizinha teve problemas estomacais e ficou gravemente doente como consequência de ter bebido essa água. Quando esses acontecimentos foram relacionados com os sinais de contaminação da água, foi iniciada uma pesquisa. Uma vizinha contou que as águas estavam contaminadas porque o complexo de esqui lançava águas servidas ao arroio Gutiérrez. A preocupação da comunidade e dos vizinhos fez com que solicitassem a análise da água. O estudo indicou que a água “não era apta para consumo humano”. A partir da contaminação da água a vida cotidiana da comunidade Carriqueo se alterou de maneira decisiva. Por exemplo, foi necessário se deslocar até uma vertente para conseguir água para beber e não continuaram tomando banho no arroio porque a água provocava doenças na pele. Segundo a Susana, a água já não é transparente nem cristalina e as pedras do leito do arroio se cobriram de uma substância de cor marrom. A superfície apresenta bolhas que indicam a presença de bactérias. Os peixes também evidenciam os efeitos da contaminação: ao abri-los encontram-se vermes e manchas. Em 2007, Erasmo Maldonado, esposo da Susana, fez uma denuncia mediática descrevendo o estado do arroio quando termina a temporada turística invernal.

Em 2016, a comunidade solicitou uma nova análise da qualidade das águas do arroio Gutiérrez. Os relatórios de todas as análises realizadas historicamente foram unânimes: a água “não é apta para consumo humano” (ver Denuncias e Informes sobre la calidad del agua).

O despojo territorial

Além da contaminação das águas, iniciativas privadas que invadem o território da comunidade instalam cercas e iniciam projetos imobiliários de procedência incerta, e o Exército argentino aplica pressão constante no território.

13 – Imagem de satélite. O despojo territorial

O setor privado colocou na beira do canal - onde a família desenvolvia sua vida - cartazes indicando que é proibido passar, deixando montes de sucata e instalando cercas de arame.

14 - Foto. Cartazes de proibição de acesso dentro da Lof Carriqueo, que evidenciam o despojo

15- Foto. Sucata acumulada pelos usurpadores da Lof Carriqueo

16 - Foto. Legenda: A Lof Carriqueo transformada em lixão pelos usurpadores

17 - Vídeo. Evidência do dano efetuado pelos usurpadores

Reflexões finais: uma comunidade na defesa de seu território

A história da Lof Carriqueo é o relato da forma de viver de uma família mapuche, em um território de incomparável beleza natural. Cada geração soube cuidar e desfrutar do ambiente e transmitiu esse saber às seguintes gerações. Sua memória contém inúmeras histórias sobre as águas circundantes: jogos, subsistência, trabalho, paisagem, cuidado e também acidentes trágicos. O canal e o arroio Gutiérrez abraçam o território, como forma de contenção e de cuidado. Mas esse abraço não serviu para proteger o território das pessoas que vêm de fora. A história argentina de perseguição dos povos indígenas e de despojo de seus territórios incluiu a comunidade mapuche Carriqueo. O Exército argentino e diversas organizações privadas têm pressionado a Lof para apoderar-se de seu território através de estafas, demandas e hostilidade. A pesar dos incansáveis esforços da família dirigidos a obter o reconhecimento oficial de seu lugar no mundo, ainda não o conseguiram. Pelo contrário, sistematicamente recebem ordens de despejo e a proibição, mediante a colocação de cartazes e da presença dos usurpadores, de ter acesso ao setor de seu território onde se encontra o canal Gutiérrez, construído pelo avô de Susana Carriqueo. Os cursos de água que rodeiam a comunidade tampouco conseguiram evitar o avanço e as consequências do processo de gentrificação. A beleza da paisagem da cidade de San Carlos de Bariloche e seus arredores tem atraído capitais para o desenvolvimento da indústria do turismo: centros de esqui, hotéis, restaurantes e enorme quantidade de turistas. Esse desenvolvimento não tem sido regulado por normativas dirigidas a evitar e controlar os efeitos nocivos sobre as populações e o meio ambiente. Assim, a família Carriqueo, com muito pesar e saudade, é testemunha privilegiada não apenas do despojo, mas da deterioração do ambiente. As águas estão contaminadas, a fauna se afasta ou se extingue, a vegetação desaparece, as pessoas adoecem, o território tem se transformado em um lugar de acumulação de desperdícios. Apesar disso, o amor por seu território e a força por respeitar os ensinamentos de seus antecessores são inquebrantáveis. Com tenacidade firme, a Lof Carriqueo não deixa de reclamar às autoridades e de cuidar seu território.

Citation

Carriqueo, Susana, Mariel Bleger, Florencia Yanello, Lorena Cardin, Marcela Tomas, Ana Ramos, e Valentina Stella. 2024. 'A Lof Carriqueo e sua luta na defesa do território e da água'. Desapropriações nas Américas. https://staging.dia.upenn.edu/pt/content/CarriqueoS001/

Itens Relacionados

A fronteira da República Argentina ao norte e ao leste do território da Pampa em 1869

A fronteira da República Argentina ao norte e ao leste do território da Pampa em 1869

Comentário do mapa 1869
Kowkülen (Ser líquido) [Kowkülen (Ser líquido)]

Kowkülen (Ser líquido) [Kowkülen (Ser líquido)]

Obra de arte

Desapropriações nas Américas

Um projeto de

University of Pennsylvania

Copyright 2024

Com o apoio de

Mellon Foundation

Projeto e desenvolvimento do site

Element 84

Páginas do site

  • Lar
  • Explorar
  • Autores
  • Sobre
  • Arte
  • Corpos
  • Currículos
  • Patrimônio Cultural
  • Mapas
  • Territórios