BOL0006Y
TERRITÓRIO MULTIÉTNICO SOB O DOMÍNIO INCA: OS VALES CENTRAL E ALTO DE COCHABAMBA NA DÉCADA DE 1530
Carmen Medeiros, Celina Grisi e Radek Sánchez
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Este mapa ilustra a composição multiétnica dos vales central e alto da atual Cochabamba, Bolívia, como resultado das políticas de reassentamento incaicas no início do século XVI.1 Os chamados «vales de Cochabamba» são três vales contíguos (baixo, central e alto) que, de oeste a leste, formam um grande vale fértil. Os incas reclamaram estas terras como domínios do Estado, deslocaram a população nativa mais para o leste e trouxeram grupos de outros distritos do Estado inca, conhecido como o Tawantinsuyu [XXX enlace a BOL0001Y]. Assim, os incas transformaram esta zona do Qullasuyu [XXX enlace a BOL0002Y], o distrito meridional do Estado inca, em um território multiétnico governado diretamente por funcionários incas.2 [LEIA MAIS]
No final do século XV, el Sapa Inca Tupaq Yupanki (chefe do Estado inca) conquistou os vales de Cochabamba. Os principais grupos nativos que se encontravam nos vales central e alto eram os Sipesipes (ou Sipi-Sipis), os Cotas (ou Qutas) e os Chuyes (ou Chuis). Em um esforço por consolidar o controle do Estado inca sobre esses territórios recém adquiridos, Tupaq Yupanki mudou parte da população nativa para o sudeste, onde deviam proteger as novas fronteiras orientais [XXX enlace a BOL0005Y] contra as indomáveis lideranças das terras baixas dos chiriguanos (nome que os incas, e mais tarde os espanhóis, utilizaram para referir-se ao povo tupi-guarani). Enquanto a maioria dos sipi-sipi lhes foi permitido permanecer, grandes segmentos das populações quta e chui foram reassentados em fortalezas incas, em Pocona e Mizque, ao longo da fronteira oriental.
No início do século XVI grandes transformações agrárias ocorreram, quando o filho de Tupaq Yupanki, Wayna Qhapaq, apoderou-se desses vales para «estabelecer um “arquipélago” de propriedade estatal para a produção de milho em grande escala, essencialmente para o uso do exército».3 A mão de obra para esta vasta empresa foi recrutada em outras áreas do Qullasuyu, principalmente nas comunidades aimarás do altiplano [XXX enlace a BOL0003Y]. De acordo aos testemunhos registrados em documentos coloniais, 14.000 «índios» de «diferentes nações» foram trazidos. Se este número fosse exato, indicaria «uma empresa e um alcance sem precedentes».4 Isso diferencia muito de outros casos de arquipélagos estatais, que normalmente implicavam o reassentamento de entre 1000 e 2000 chefes de família.5 Apesar dos dados sobre a origem regional dessas pessoas serem escassos e pouco categóricos, parece seguro que os 14.000 incluíam tanto mitmaqkuna (pessoas reassentadas permanentemente no vale) como mitayos (pessoas que se revezavam anualmente, como parte do sistema incaico de impostos ao trabalho, conhecido como mit’a [XXX enlace a «mit’a» en el glosario]).
Excetuando algumas poucas áreas pequenas que pertenciam de forma pessoal a Wayna Qhapaq, as terras confiscadas em Cochabamba passaram a pertencer ao Estado. Todos os campos eram cultivados pelos mitmaqkuna e os mitayos rotativos, que eram administrados por suas respectivas autoridades étnicas, mas que, em última instância, permaneciam sob a autoridade de dois governadores incas. Certos campos eram alocados aos trabalhadores para seu próprio sustento e também tinham licença para cultivar as margens superiores e inferiores dos campos do Estado inca. Algumas terras foram concedidas às autoridades étnicas, das quais esperava-se que praticassem a «generosidade» redistribuindo as colheitas entre aqueles que as cultivavam. Os mitmaqkuna reassentados e os mitayos rotativos também se beneficiaram da «generosidade» do Sapa Inca e receberam milho dos celeiros do Sapa inca. Além destas redistribuições, o milho produzido em Cochabamba era guardado no centro de armazenamento de Paria (situado na meseta alta ao longo do Caminho inca [XXX enlace a BOL0004Y]) e posteriormente era transportado a Cuzco. Os pastores de lhamas dos Suras (ou Soras) [XXX enlace a BOL0027Y] de Sipe-Sipe se ocupavam do transporte entre os vales de Cochabamba e Paria e cuidavam dos rebanhos que pertenciam ao Estado inca em Sipe-Sipe, situado no vale baixo [XXX enlace a BOL0007Y].
As pólis aimarás que foram recompensadas com colônias dedicadas ao cultivo do milho nos vales de Cochabamba incluíam: os Charkas [XXX enlace a BOL0036Y], Qaraqaras [XXX enlace a BOL0037Y], Suras [XXX enlace a BOL0027Y], Killakas [XXX enlace a BOL0038Y], Karanqas [XXX enlace a BOL0041Y], Chichas [XXX enlace a BOL0018Y], Qullas e Kanas (a ortografia espanhola desses nomes nos documentos coloniais e posteriores é: Charcas, Caracaras, Soras, Quillacas, Carangas, Chichas, Collas e Canas). Os urus, um grupo étnico não aimará originário do altiplano, também tinham colônias nesses vales.
Após a conquista espanhola, alguns mitmaqkunas e mitayos aimarás localizados nos territórios do vale voltaram a suas terras natais no altiplano, enfrentando-se potencialmente a desafios como a perda de propriedades ou a redução de sua influência em comparação com seu status anterior à conquista. Alguns dos que permaneceram no vale conseguiram manter os vínculos com suas respectivas comunidades aimarás, mas outros não puderam fazê-lo. Com o passar do tempo, a maior parte da população indígena dos vales se transformou em indígenas submetidos ao regime imposto pelos proprietários das fazendas (grandes estabelecimentos de propriedade privada).
No contexto atual do Estado Plurinacional da Bolívia, a maioria dos residentes indígenas dos vales de Cochabamba são falantes de qhishwa que geralmente se identificam como membros da nação qhishwa (ou quéchua).
REFERÊNCIAS:
Larson, Brooke. Colonialism and Agrarian Transformation in Bolivia: Cochabamba 1550–1900. Princeton: Princeton University Press, 1988.
Sánchez, Walter. «Indios buenos para la guerra: Agencia local y presencia inca en los valles de Cochabamba». Em Ocupación inca y dinámicas regionales en los Andes (siglos XV-XVII), editado por Claudia Rivera Casanovas, 99-122. La Paz: IFEA e Plural editores, 2014.
Wachtel, Nathan. «The Mitimas of the Cochabamba Valley: The Colonization Policy of Huayna Capac». Em The Inca and Aztec States, 1400-1800: Anthropology and History, editado por George A. Collier, Renato I. Rosaldo e John D. Wirth, 199–235. Cambridge, MA: Academic Press, 1982.
Walter Sánchez, «Indios buenos para la guerra: Agencia local y presencia inca en los valles de Cochabamba», en Ocupación inca y dinámicas regionales en los Andes (siglos XV-XVII), ed. Claudia Rivera Casanovas (La Paz: IFEA e Plural editores, 2014), 99-122. ↩︎
Brooke Larson, Colonialism and Agrarian Transformation in Bolivia: Cochabamba, 1550–1900 (Princeton: Princeton University Press, 1988), 20. ↩︎
Nathan Wachtel, «The Mitimas of the Cochabamba Valley: The Colonization Policy of Huayna Capac», en The Inca and Aztec States, 1400–1800: Anthropology and History, ed. George A. Collier, Renato I. Rosaldo e John D. Wirth (Cambridge, MA: Academic Press, 1982), 199–235. ↩︎
Wachtel, «Los mitimas del valle de Cochabamba: la política de colonización de Huayna Cápac», 218. ↩︎
Wachtel, «Los mitimas del valle de Cochabamba: la política de colonización de Huayna Cápac». ↩︎
Citation
Medeiros, Carmen, Celina Grisi, and Radek Sánchez Patzy. 2024. 'TERRITÓRIO MULTIÉTNICO SOB O DOMÍNIO INCA: OS VALES CENTRAL E ALTO DE COCHABAMBA NA DÉCADA DE 1530'. Dispossessions in the Americas. https://staging.dia.upenn.edu/pt/content/BOL0006Y/
