Resumo
No centro da obra de Johan Mijail está o corpo como lugar de inscrição, vulnerabilidade e resistência. Ao reimaginar o poema de Frank Báez, La Marilyn Monroe de Santo Domingo, Mijail se posiciona como “a autêntica Marilyn Monroe de Santo Domingo,” uma travesti cuja existência se desenvolveu marginalizada. Por meio de una prosa confessional e reescrita cênica, o corpo e a poesia se fusionam em um ritual que desestabiliza os limites do gênero e as normas sociais. Sua ação poética de 2016 em Santiago do Chile, realizada em nudez com botas brancas de salto alto, é um exemplo desta representação: um ritual da palavra falada em que a identidade se dissolve entre o masculino e o feminino. Detalhes como a maquiagem borrada e a meia-calça simulando peitos expõem a fragilidade e a força da autoconstrução. Mais do que uma biografia, o trabalho de Mijail é uma crítica corporal dos estereótipos de gênero, colocando em cena o corpo como uma íntima confissão e resistência coletiva.
O texto de Johan Mijail, profundamente confessional e cheio de imagens potentes, explora a identidade e as fronteiras de gênero através da figura icônica de Marilyn Monroe, reimaginada no contexto de Santo Domingo. Johan, em sus palavras, se identifica como a “autêntica Marilyn Monroe de Santo Domingo”, uma travesti, incompreendido e poético que vive sua realidade marginalizada. Na reescrita do poema de Frank Báez, titulado “La Marilyn Monroe de Santo Domingo”, Mijail desenvolve uma narrativa em que o corpo e a poesia se fundem em uma espécie de ritual performático, cheio de simbolismos e rituais. O autor relata como em 2016 levou adiante uma ação poética em Santiago do Chile, onde seu corpo se transformou no veículo de sua poesia. Nu e com botas brancas de salto alto, realizou a performance de spoken word em que sua identidade se esvaece entre o masculino e o feminino, dando vida a essa “quase-fêmea” descrita na cena, capturada em um plano fixo com um pano de fundo cotidiano — a lavagem de um carro—, joga com a tensão entre o íntimo e o público, o ritualístico e o mundano. A referência a sua transformação física, com detalhes sobre a maquiagem borrada pelas lágrimas e as meias simulando seios, enfatiza a vulnerabilidade do autor no processo de reinterpretar seu próprio corpo e suas experiências. Este ato, embora pessoal, ressoa com uma crítica mais ampla sobre os estereótipos de gênero e a pressão social que condiciona estas identidades.
Johan Mijail, por meio de sua prosa crua e seu estilo desinibido, nos mostra um ritual de autoexploração, em que o corpo e o espírito se enfrentam no espelho da sociedade a procura de autenticidade que desafia as normas estabelecidas.
Citation
Mijail, Johan. 'Una de las Postales Mentía [Um dos cartões postais mentia]'. Dispossessions in the Americas. https://staging.dia.upenn.edu/pt/art/AMEX014/

