Resumo
Veta Negra é uma interpretação artística que representa o apagamento e o ressurgimento da memória afro-mexicana por meio da metáfora do corpo minado. Concebida como uma paramnésia fantástica para uma insurreição de sangue Negro, a peça desenterra a história silenciada da presença negra em Pachuca e Real del Monte, regiões marcadas pela extração colonial de prata e pelo trabalho tóxico. Em seu núcleo se encontra a herança fragmentada do próprio artista: uma linhagem Afrodescendente sob capas de branquitude, mito e esquecimento. Mediante uma coreografia macabra e alucinatória inspirada no Butoh, a interpretação artística reivindica o corpo como arquivo imaterial: um corpo que guarda o trauma ancestral, as histórias orais, os gestos e o resíduo geológico do capitalismo extrativista. O corpo se transforma em local e testemunha do espólio: contaminado pelas toxinas persistentes da mina (jale), mas palpitante com a memória reativa dos ancestrais escravizados e a negritude chimarrona.
Veta Negra desafia o apagamento histórico da negritude no México ao esmiuçar o arquivo colonial e expor seus silêncios raciais. É uma dança de resistência e reinscrição, na que a carne guarda o que o registro omite.
“Para todos, o trabalho do negro. PARAMNESIA FANTÁSTICA PARA UMA INSURREIÇÃO DE SANGUE NEGRO. Corre escravo fugitivo, foge, entra na floresta, nos mares e desertos, escapa desse desejo incomensurável e demoníaco de poder …”
Veta Negra reflete sobre os estragos causados pelas estações mineiras de prata na região de Pachuca e seu vínculo com uma raiz Afro-mexicana oculta e invisibilizada à que ele mesmo pertence. A interpretação artística é uma dança macabra que esmiuça a história abordando o apagamento do sangue Negro e suas marcas na história colonial de Pachuca e Real del Monte. Desse apagamento surge um corpo sem passado que deve ser relatado, que só pode ser acessado através da reconstrução. Entre a inspiração delirante e as alucinações mnésicas da ficção, a parafrenia fantástica é representada na realidade coreografada e codificada da linguagem inconsciente do Butoh.
Minha raiz africana e meu corpo como arquivo intangível. «Só conheci meu pai quando tinha 21 anos, quando tive a oportunidade de lhe perguntar de onde eram meus avós e os avós dos meus avós. A dúvida surgiu porque eu não parecia em nada com ele, já que seu rosto era de um homem negro com nariz largo e cabelo de chinês. Respondeu-me com a história de que meu avô paterno resultou ser um homem branco de olhos azuis e com as lembranças que sua avó contava para ele sobre a chegada de seus antepassados, contando que a matriarca da família tinha chegado como escrava africana em 1555 a Nova Espanha e o patriarca tinha chegado com um circo húngaro, conhecido à matriarca e aí começa uma Veta Negra que acaba em mim.»
«O corpo se transforma em arquivo quando, em uma relação de alteridade, ele se apropria, incorpora e transmite o Outro, No entanto, a dialética entre corpo e arquivo é problemática, já que vincula duas entidades aparentemente discrepantes. De um lado, o arquivo pode assumir diferentes formas e ser entendido a partir de sua materialidade, a fim de conservar a memória e/ou de servir como material de pesquisa. Do outro, o arquivo também pode ser abordado a partir da sua imaterialidade, isto é, como um conjunto de saberes que podem estar imbuídos na transmissão oral, na memória corporal, nos hábitos, nos comportamentos e nas experiências vivenciadas»
Veta Negra é, portanto, um corpo-arquivo que foi exposto a elementos intoxicantes, ao «jale» que ainda respira, que ainda se «patea», para decodificar e reconstruir a memória genética e geológica de «la pachocha», a riqueza da terra, através de seu tempo profundo, carnal e histórico.
Citation
Cruz, Carlos. 'Veta Negra [Veia Negra]'. Desapropriações nas Américas. https://staging.dia.upenn.edu/pt/art/AMEX007/

